Nathan de Castro - Nathan de Castro Ferreira Júnior, nasceu em 23 de Janeiro de 1954, em Olhos d'Água, Município de João Pinheiro-MG.

Passou a infância e a adolescência na bela cidade mineira de Patrocínio, onde estudou na Escola Erasmo Braga e no Colégio Dom Lustosa.

Depois de três anos em São Paulo, regressou a Patrocínio e ingressou na carreira bancária em 1975, especializando-se em ciências contábeis, cursos de relações humanas, finanças e áreas bancárias, o que o levou a trabalhar em diversas cidades de Minas Gerais e Goiás. Atualmente, tem residência em Uberlândia.

O Cara

Eu sou o cara e a cara que apresento
tem os sinais e as marcas da loucura
de bardo atrapalhado em meio à fúria
das tempestades mórbidas do tempo.

Eu sou o cara e o cara que alimento
tem fome de poesia e uma fratura,
causada pelas pedras da luxúria,
no peito acostumado ao passatempo.

Eu sou o cara, o morto-vivo, o ausente,
o que perdeu o amor e, numa prece,
quis ter de volta os olhos do poeta.

Voltar a ser criança?... Felizmente
o tempo não tem volta e, se tivesse,
traria as mesmas rugas na careta.

© Nathan de Castro



Para Escrever um Soneto

( Luta de Esgrima )

Conta até seis e bate o pé no chão,
quando chegar a dez prepara a rima...
A primeira medalha está na mão
e a mágica do sonho se aproxima.

Deixa que flua a conta da emoção,
sem ela o peito esfria e desanima...
O segundo combate é o da paixão
e sabe a solidão de quem esgrima.

A luta exige pulso e coordenados
movimentos perfeitos nos espaços...
Um toque na cabeça, tronco ou braços,

pode levar-te ao mar dos derrotados.
Mas se vencer, amigo, comemora
e, te prepara: - um louco em ti se aflora!

© Nathan de Castro



Lápis de Esperança


Andarilho-burguês passei o tempo,
sem tempo para o tempo aproveitar.
O tempo era pretexto e contratempo
que não deixava tempo pra sonhar.

Os amores ficaram pela estrada
da poeira do tempo de entender,
nos olhares da Estrela perfumada,
a imensidão do tempo de viver.

Hoje, quando no céu a nuvem passa
carregada, procuro uma caneta
para escrever um verso que me faça

voltar aos velhos tempos da criança
que enxergava com olhos de poeta
e escrevia com lápis de esperança.

© Nathan de Castro



Mulheres-Poesia

Poética de pedras preciosas,
com rimas de rubis e diamantes.
Luares, Sóis e Pétalas de rosas
em todas as cantigas dos amantes.

Donas da dor, do amor e belas prosas,
gerando vidas, sonhos e esperanças
num mundo de cantigas tenebrosas,
desafiando os passos dessas danças.

Nem mesmo o sal, o tempo, a maresia,
a pedra falsa e o cinza das janelas
podem co' a força e o brilho das Estrelas.

Mistérios de ouro e prata no planeta!
Ventos de águas marinhas na caneta:
Amantes, Mães, Mulheres... Poesia!

© Nathan de Castro



O Tempo da Paixão

Quando em silêncio visto a fantasia
de um sonho amarelado, perco a hora
do trem fantasma, a rima sangra, chora
deixando o frio, as tumbas e a fobia!

Velórios não me encantam, mas lá fora
a procissão das quadras faz folia
e bailando em meus palcos, sentencia:
__O tempo da paixão é aqui e agora!

Ah!... Meu amigo, não percas a aurora,
pois as canções nas mãos dessa Senhora
do tempo, são fiéis à sinfonia...

Veste o momento e o traje que apavora,
deixa o medo de lado e a poesia
cumpre, antes que se apague a luz do dia.

© Nathan de Castro



Para Esperar a Noite

Eu já morri de amor por tantas vezes,
mas sempre volto em busca da emoção
que inflama no meu peito esses quereres
de ter os teus lindos olhos na canção.

Passam os dias, passam, passam meses,
morro outro ano e nasce outra paixão...
Ao fim, sei que cumpri com os deveres
de apaixonado e estúpido artesão.

Tecendo versos, sigo outro setembro,
trago na mala os beijos que relembro
em cada canto e em cada melodia...

Mas quando a noite, enfim, vier ao vento,
quero levar o encanto do momento
do encontro do luar com a poesia.

© Nathan de Castro



Para que o Amor Acorde

Não basta reciclar latinhas de cerveja!
Há que se reciclar os sonhos e a magia
do amor maior, embora o amor maior não seja
o enredo das canções do nosso dia-a-dia.

Não basta replantar florestas... A peleja
exige a luta e a Terra livre da folia,
feita ganância louca, tanta e que apedreja
o olhar da natureza e as ramas da poesia.

Não bastam os discursos lançados ao vento,
se o sangue do Planeta exige novo estoque,
sem rimas de carbono e pragas no alimento...

O brilho da Poesia espera pelo toque
dos lábios de um poema azul de novo tempo,
para que o amor acorde e acalme o firmamento.

© Nathan de Castro



Soneto Com Tabuada e Estrambote


Quando o silêncio chama o meu poeta
para um novo poema, vou sangrando
e o líquido que jorra da caneta
mancha a saudade e as luas do comando.

Se penso numa prosa, uma trombeta
toca um soneto, e já considerando
que a conta dos quatorze está completa,
arrisco um verso livre, torto e brando.

O resultado é pálido e sem graça.
- Não sei falar de sonhos sem rimar
e sem contar as sílabas... Cachaça! -

O vício me acompanha e faz pirraça.
Contei tantas estrelas ao luar,
que agora pra escrever e dizer nada

junto ao poema os sons da tabuada.

© Nathan de Castro



Soneto Criança

Eu sou criança, sei contar estrelas
e elas me contam versos de voar...
As noites de quintais são sempre belas
quando as nuvens retornam para o mar.

Preciso apenas de umas passarelas
de cores vivas para desfilar
o amor, a paz, a vida e as aquarelas
que a lua me ensinou a desenhar.

Não quero a fome, a sede, as tristes bombas
e nem os nevoeiros, feitos sombras,
nos olhos dos meus pais... Felicidade

é um passarinho livre no arvoredo,
é caminhar ao sol sem sentir medo
e adormecer no chão da liberdade.

© Nathan de Castro



A Árvore Tombada

Tem uma árvore tombada na colina.
A gente nota que ela já chorou toda a seiva e, provavelmente, vai servir de lenha para alguma fogueira, algum fogão ou alguma lareira.
A árvore tombada desnuda-se, involuntariamente, com os efeitos do clima: é sol, é chuva, é dia, é noite, e lá está a árvore tombada...
A cada dia mais frágil, mais silenciosa e mais vazia.
Ela já não se lembra dos perfumes que espalhava nas tardes primaveris, não se lembra das mudanças das estações, da alegria dos galhos ao balanço do vento e dos alegres pássaros que faziam os seus ninhos por entre as folhagens verdejantes.
Como era belo o viver!... Como era bom sentir a vida brotar por entre os galhos.
Que dizer dos frutos?...
Daqueles garotos travessos que subiam nos galhos, colhiam os frutos maduros e se lambuzavam com o suco e a polpa?...
Sim, tem uma árvore tombada na colina.
É triste ver que a árvore não tombou por vontade própria.
Dói saber que foi lenta a sua agonia. Os sinais
dos golpes de machado ainda podem ser vistos
no tronco.
Sim, tem uma árvore tombada na colina e nada posso fazer para curar essa dor de poema inacabado.

© Nathan de Castro